Augúrios
Sombria e silenciosa era aquela noite. Mas no ensurdecedor silêncio anunciado era possível ouvir um leve sussurro e chiado.
- Quem vem vindo aí?
Perguntou assustado um homem só, que trajava um surrado pijama azul desbotado, calçando apressadamente um maltrapilho chinelo de tiras de couraça de bode. Praticamente tudo artesanal, devido à distância de tudo de bom que a sociedade podia proporcionar.
- Sou eu! - ouvia-se de longe a voz.
Aos poucos o caminhar de botas pesadas aproximava-se da eira da casa e, nesta toada foi sabatinado de primeira:
- O que trazes pra mim seu moço?
- Notícias de longe, de um infortúnio!
Apreensão e soluços secos retomam o silêncio. Aquele corpo gélido e pálido de susto, como se tivesse tomado pra si um veneno, aos poucos foi estremecendo diante da possibilidade do anúncio de um mau augúrio.
Antes que seus pensamentos ainda confusos pelo supetão da surpresa noturna pudessem sequer imaginar o tema, logo refutou:
- Por onde procederdes, voltes.
Claro! Não podia apagar de sua mente o pouco que ainda carregava de seu passado de glória. Não podia dar azo àquilo tudo que tentou a vida inteira reprimir dentro de suas lembranças, afligindo o peito e entorpecendo o cérebro com toda desesperança.
- Inda queres ouvir a missiva, meu senhor? Questionou a voz de lá de fora, na noite fria e silenciosa, afastando-se, conforme ordenado, da beira da pequena casa.
- Não! Responde calmamente o interlocutor. Fingindo calma, ainda que sua mente extremasse um turbilhão de pensamentos confusos.
Resposta certiva sem qualquer titubear.
Quem sabe não seja assim melhor? – continuou asseverando enquanto levantava o queixo e sacudia os ombros, como que por desdém, afastando o que pudesse lhe dizer.
- Tu quem sabes, oh dotô!
E de leve e sorrateiro ouviu-se o silêncio de novo.
Sentiu ali, naquele momento, quão bom é estar ignóbil e só. Sem esperança no futuro e sem um amor, ciente de que não saberá da notícia da dor.
Solidão não lhe tinha sido um castigo imposto pela vida, culpando o destino por tudo que passava nos últimos 20 anos, mas sim uma escolha de existência que fizera.
Entretanto, em momento algum sua escolha o fez deixar de pensar e relembrar aqueles que em sua vida passaram. Diversos amores, uma família abastada, um lar cheio de conforto, rapapés e criadagem bem alinhada, capaz de tornar surreal a escolha defendida: quem em sã consciência poderia tudo aquilo abandonar?
Agora sua vida se resume a uma tapera, construída com as próprias mãos na baixada de um terreno instável; hora alagadiço, hora de extrema seca. Batido de barro amassado com os pés e formatado pelas mãos, assim como faziam os índios e escravos refugiados.
Aprendera os trabalhos manuais na labuta da sobrevivência, pois, de berço, sequer soubera o que era desconforto em um leito ou como suportar as intempéries do clima.
Alheio, porém, ao desconforto retratado e ao frio do clima, e não do calafrio dorsal que sentiras, ainda assim, inevitavelmente, questionava-se:
- O que será que poderia querer aquele homem? – resmungou baixinho, como que com medo de que alguém lhe ouvisse, mesmo sabendo que estava ali só.
- Não pode ser notícia de infortúnio, pois infortúnio maior não chegaria a mim. Ninguém sabe onde estou!
A dúvida alagava seus pensamentos, corroendo seu peito de forma voraz e inebriante.
Cansado daquilo tudo, afinal, já se foram 20 anos ali na penumbra e tentando fugir de tudo e todos - como se isso fosse realmente uma fuga - partiu em disparada pelo caminho torto, com mato a meia altura, ainda úmido pelo orvalho noturno da serração baixa que cobria a vegetação mista e soprava frio na madrugada.
- Alto lá! – gritou o homem que se fazia de ermitão ao mensageiro.
- Sim sinhô, dotô? – respondeu o mensageiro em tom de reverência, como se já soubesse da importância que aquele barbudo eremita um dia tivesse impingido no passado.
- Mudei de idéia; quero os termos da missiva! – apesar de estar por dois séculos longe de tudo que fosse sociedade, ainda manteve no seu vocabulário toda a pompa e circunstância dos nobres de sua abandonada sociedade.
Naquele momento, em que esperava pela notícia trazida, mesmo na penumbra frívola da noite orvalhada e na serração baixa do local, pode reparar na figura do mensageiro: homem de estatura mediana, mulato, trajando roupas levemente surradas, puxando de uma perna, como se fosse ferido de guerra ou exausto de longa caminhada.
- Joaquim Paiol! – exclamou o recluso, reconhecendo naquela figura um antigo criado.
- Quanto tempo nobre amigo. Nem mais lembravas seu rosto. Sequer reconheci sua voz ao me importunar.
- Pois é sinhô dotô. Joaquim Paiol, igual o sinhô costumava me chamar quando criança e passava horas a brincar no paiol de sua fazenda onde eu debulhava o milho. Lá se foram uns quinze anos da despedida do sinhô, “num é”?
Antes que pudesse concluir sua fala, foi interrompido repentinamente pelo fugido:
- Quinze anos não Joaquim. Já se foram 20 anos que parti! – amargurou naquele momento a lembrança do tempo.
- Pois é dotô. Sabes muito bem que minha memória e minha noção de tempo são fracas. Assim como minhas pernas agora.
Alguns segundos relaxados, enquanto algumas risadas tomavam o ar silencioso daquele lugar. Sim, risadas naquele rosto maltrapilho e solitário. Semblante que jazia há muito na sua face.
- Mas diga lá Joaquim, o que trazes de noticias para mim?
- Notícia não muito “das boa, dotô”! Vim lhe trazer esta carta escrita por sinhá Madalena.
No mesmo momento, impossibilitado de ler a carta, o semblante de Arthur (nome de batismo daquele eremita – na verdade Arthur Bragança Maia) modificou-se, passando da alegria do reencontro com o velho serviçal, pelo da lembrança avassaladora dos sonhos que sempre cultivou, mesmo que a contragosto, da figura de Madalena, seu único e verdadeiro amor.
Continua...
Sombria e silenciosa era aquela noite. Mas no ensurdecedor silêncio anunciado era possível ouvir um leve sussurro e chiado.
- Quem vem vindo aí?
Perguntou assustado um homem só, que trajava um surrado pijama azul desbotado, calçando apressadamente um maltrapilho chinelo de tiras de couraça de bode. Praticamente tudo artesanal, devido à distância de tudo de bom que a sociedade podia proporcionar.
- Sou eu! - ouvia-se de longe a voz.
Aos poucos o caminhar de botas pesadas aproximava-se da eira da casa e, nesta toada foi sabatinado de primeira:
- O que trazes pra mim seu moço?
- Notícias de longe, de um infortúnio!
Apreensão e soluços secos retomam o silêncio. Aquele corpo gélido e pálido de susto, como se tivesse tomado pra si um veneno, aos poucos foi estremecendo diante da possibilidade do anúncio de um mau augúrio.
Antes que seus pensamentos ainda confusos pelo supetão da surpresa noturna pudessem sequer imaginar o tema, logo refutou:
- Por onde procederdes, voltes.
Claro! Não podia apagar de sua mente o pouco que ainda carregava de seu passado de glória. Não podia dar azo àquilo tudo que tentou a vida inteira reprimir dentro de suas lembranças, afligindo o peito e entorpecendo o cérebro com toda desesperança.
- Inda queres ouvir a missiva, meu senhor? Questionou a voz de lá de fora, na noite fria e silenciosa, afastando-se, conforme ordenado, da beira da pequena casa.
- Não! Responde calmamente o interlocutor. Fingindo calma, ainda que sua mente extremasse um turbilhão de pensamentos confusos.
Resposta certiva sem qualquer titubear.
Quem sabe não seja assim melhor? – continuou asseverando enquanto levantava o queixo e sacudia os ombros, como que por desdém, afastando o que pudesse lhe dizer.
- Tu quem sabes, oh dotô!
E de leve e sorrateiro ouviu-se o silêncio de novo.
Sentiu ali, naquele momento, quão bom é estar ignóbil e só. Sem esperança no futuro e sem um amor, ciente de que não saberá da notícia da dor.
Solidão não lhe tinha sido um castigo imposto pela vida, culpando o destino por tudo que passava nos últimos 20 anos, mas sim uma escolha de existência que fizera.
Entretanto, em momento algum sua escolha o fez deixar de pensar e relembrar aqueles que em sua vida passaram. Diversos amores, uma família abastada, um lar cheio de conforto, rapapés e criadagem bem alinhada, capaz de tornar surreal a escolha defendida: quem em sã consciência poderia tudo aquilo abandonar?
Agora sua vida se resume a uma tapera, construída com as próprias mãos na baixada de um terreno instável; hora alagadiço, hora de extrema seca. Batido de barro amassado com os pés e formatado pelas mãos, assim como faziam os índios e escravos refugiados.
Aprendera os trabalhos manuais na labuta da sobrevivência, pois, de berço, sequer soubera o que era desconforto em um leito ou como suportar as intempéries do clima.
Alheio, porém, ao desconforto retratado e ao frio do clima, e não do calafrio dorsal que sentiras, ainda assim, inevitavelmente, questionava-se:
- O que será que poderia querer aquele homem? – resmungou baixinho, como que com medo de que alguém lhe ouvisse, mesmo sabendo que estava ali só.
- Não pode ser notícia de infortúnio, pois infortúnio maior não chegaria a mim. Ninguém sabe onde estou!
A dúvida alagava seus pensamentos, corroendo seu peito de forma voraz e inebriante.
Cansado daquilo tudo, afinal, já se foram 20 anos ali na penumbra e tentando fugir de tudo e todos - como se isso fosse realmente uma fuga - partiu em disparada pelo caminho torto, com mato a meia altura, ainda úmido pelo orvalho noturno da serração baixa que cobria a vegetação mista e soprava frio na madrugada.
- Alto lá! – gritou o homem que se fazia de ermitão ao mensageiro.
- Sim sinhô, dotô? – respondeu o mensageiro em tom de reverência, como se já soubesse da importância que aquele barbudo eremita um dia tivesse impingido no passado.
- Mudei de idéia; quero os termos da missiva! – apesar de estar por dois séculos longe de tudo que fosse sociedade, ainda manteve no seu vocabulário toda a pompa e circunstância dos nobres de sua abandonada sociedade.
Naquele momento, em que esperava pela notícia trazida, mesmo na penumbra frívola da noite orvalhada e na serração baixa do local, pode reparar na figura do mensageiro: homem de estatura mediana, mulato, trajando roupas levemente surradas, puxando de uma perna, como se fosse ferido de guerra ou exausto de longa caminhada.
- Joaquim Paiol! – exclamou o recluso, reconhecendo naquela figura um antigo criado.
- Quanto tempo nobre amigo. Nem mais lembravas seu rosto. Sequer reconheci sua voz ao me importunar.
- Pois é sinhô dotô. Joaquim Paiol, igual o sinhô costumava me chamar quando criança e passava horas a brincar no paiol de sua fazenda onde eu debulhava o milho. Lá se foram uns quinze anos da despedida do sinhô, “num é”?
Antes que pudesse concluir sua fala, foi interrompido repentinamente pelo fugido:
- Quinze anos não Joaquim. Já se foram 20 anos que parti! – amargurou naquele momento a lembrança do tempo.
- Pois é dotô. Sabes muito bem que minha memória e minha noção de tempo são fracas. Assim como minhas pernas agora.
Alguns segundos relaxados, enquanto algumas risadas tomavam o ar silencioso daquele lugar. Sim, risadas naquele rosto maltrapilho e solitário. Semblante que jazia há muito na sua face.
- Mas diga lá Joaquim, o que trazes de noticias para mim?
- Notícia não muito “das boa, dotô”! Vim lhe trazer esta carta escrita por sinhá Madalena.
No mesmo momento, impossibilitado de ler a carta, o semblante de Arthur (nome de batismo daquele eremita – na verdade Arthur Bragança Maia) modificou-se, passando da alegria do reencontro com o velho serviçal, pelo da lembrança avassaladora dos sonhos que sempre cultivou, mesmo que a contragosto, da figura de Madalena, seu único e verdadeiro amor.
Continua...